
Fotografia e edição de Sheyla Macedo no “Num dado e-vento”.
O mundo concebido como imbricação de tempos e escritas, tal como acena a carta de tarot A roda da fortuna, também vislumbramos ao pensar num mundo em que passado-presente-futuro não são entendidos como claramente delineados, porquanto tal diferenciação se tenta na linguagem. Cassirer propõe que, na consciência mítica, as formas não possuem limites espaciais perfeitamente identificáveis, mas antes derivam do todo, “e de maneira original e gradual, pois não foi operado o processo de diferenciação e seleção de formas individuais” (Mito e linguagem: 18); somente quando da referência pela linguagem as coisas são delimitadas, isto é, são tomadas individualmente como uma forma separada do que as envolve, porquanto, como afirma Nietzsche, “a natureza desconhece quaisquer formas e conceitos” (Sobre a verdade e a mentira: 36). O entrelaçamento e a imbricação entre os elementos da linguagem e as diferentes configurações básicas da consciência mítico-religiosa defendidos por Cassirer e vislumbrados, por exemplo, nos limites borrados da individualidade relacionados à não-distinção nominal-verbal, permite-nos dizer da transformação no modo de conceber o mundo-tempo relacionado a esta distinção de natureza lingüística – a este organizar o mundo em espelhos.*
*trecho do artigo: “Palavras ao vento para desatar o destino”, apresentado no COLE 2009.